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No trânsito, a vida vale mais

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Tem gente saindo cedo para trabalhar. Tem gente voltando para casa depois de um dia cansativo. Tem quem leve os filhos à escola, quem enfrente longos congestionamentos e quem passe horas dirigindo a trabalho, vivendo o trânsito como parte da própria rotina profissional.

As ruas parecem cheias apenas de carros, mas dentro deles existem histórias, afetos, medos, distrações e pessoas tentando voltar para casa.

É justamente nesse ponto que o Maio Amarelo toca. Não apenas na discussão sobre regras ou fiscalização, mas na lembrança de que o trânsito é um espaço compartilhado por vidas humanas. A campanha internacional de conscientização propõe um olhar mais atento sobre comportamento, empatia e responsabilidade coletiva no transito.

Porque, às vezes, basta um segundo de pressa para atravessar o caminho inteiro de alguém.

 Reflexo emocional

Psicólogo clínico e terapeuta com certificação em EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) — ou, em português, Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares —, Sildo Souza afirma que o trânsito funciona como um reflexo direto da forma como as pessoas lidam com emoções e frustrações cotidianas.

Segundo o terapeuta, situações como congestionamentos, lentidão, acidentes, sinais fechados e imprevistos despertam irritação porque mexem diretamente com a sensação de controle e com a dificuldade de lidar com frustrações. O especialista explica que a agressividade no trânsito não surge de forma isolada, mas é resultado de fatores psicológicos, fisiológicos e ambientais que acabam desencadeando respostas emocionais intensas.

Souza aponta, ainda, que a ansiedade e a pressa alteram a percepção das pessoas durante a condução, reduzindo a atenção e aumentando comportamentos impulsivos. “Quando tensos, temos nossa percepção alterada, o que pode aumentar a probabilidade de erros e tornar a condução mais perigosa”, explica.

De acordo o psicologo, desenvolver empatia no trânsito exige compreender que as vias públicas são espaços coletivos e compartilhados. Por isso, diz, ações educativas, inteligência emocional e consciência coletiva são fundamentais para reduzir conflitos e tornar o trânsito menos agressivo.

Paciência e empatia

O motorista de aplicativo Arthur Rezende revela: “Trabalhar no trânsito me ensinou muito sobre paciência e empatia. Todo dia, entra alguém diferente no carro: gente feliz, cansada, preocupada, comemorando alguma coisa… e você acaba aprendendo a ouvir mais e julgar menos. Também passei a valorizar mais o tempo e os pequenos gestos”.

O motorista diz que, às vezes, um ‘bom dia’, uma conversa rápida ou até um silêncio respeitoso já muda o clima da corrida. “Acho que o trânsito me deixou mais humano e mais consciente de que cada pessoa está vivendo uma batalha diferente.”

O médico Fausto Garcia de Pina, que atua na “Sala Vermelha” (setor do pronto-socorro destinado exclusivamente ao atendimento de pacientes em estado crítico, com risco imediato de morte) de um hospital referência em trauma em Goiás, afirma que uma das situações mais marcantes no atendimento às vítimas de acidentes de trânsito é a idade dos pacientes.

Segundo ele, grande parte das ocorrências envolve pessoas jovens, que estavam seguindo a rotina normalmente antes do acidente acontecer. São pessoas que saíram para trabalhar, tinham uma vida inteira pela frente e, de repente, tudo muda por causa de uma imprudência.

Respeito e atenção

O médico observa que muitos acidentes poderiam ser evitados com atitudes simples, como respeitar limites de velocidade, evitar distrações e dirigir com mais consciência. “As pessoas dentro do carro, muitas vezes, se sentem protegidas e esquecem que existem pessoas mais frágeis nas vias. Grande parte dos acidentes acontece porque alguém cometeu imprudência ou infringiu alguma regra de trânsito.”

Cabral ressalta, ainda, que as consequências vão muito além do momento do acidente. Muitos pacientes ficam com sequelas permanentes, como perda de movimentos ou amputações, o que transforma completamente suas vidas e as de suas famílias. “Dar para uma família a notícia de que alguém saiu para trabalhar e não voltou para casa marca muito quem trabalha na área.”

O médico orienta sobre os cuidados após acidentes. A recomendação, explica, é evitar movimentar vítimas antes da chegada do atendimento especializado, já que algumas lesões podem se agravar com deslocamentos inadequados. “Caso presencie um acidente, o mais importante é acionar o serviço de urgência e aguardar os profissionais treinados. Há casos em que tentar ajudar sem preparo pode piorar a situação.”

 A dor na família

 A servidora pública Sandra Cabral conhece essa realidade de perto, por ter perdido o pai em acidente de trânsito: “Quando isso acontece de forma tão repentina em um acidente de trânsito, tudo parece ainda mais difícil de entender. Nenhuma palavra consegue apagar essa dor”.

A servidora destaca que acidentes não deixam apenas danos materiais, mas marcas permanentes em famílias inteiras. “Existe uma pessoa, uma história e alguém amado por alguém por trás de cada volante. Não são apenas motoristas na estrada. É o pai de alguém, a mãe de alguém, o filho, a filha, um amigo, uma vida inteira”, lembra.

Ela reforça a importância do cuidado com a saúde emocional após perdas traumáticas. “O luto causado por um acidente costuma ser muito difícil e ninguém precisa carregar sozinho essa dor. Conversar, pedir apoio ou buscar ajuda psicológica também faz parte do processo de continuar vivendo”, arremata.

Responsabilidade coletiva

Secretário de Engenharia de Trânsito de Goiânia, Tarcísio Abreu afirma que entre os comportamentos que mais preocupam atualmente estão o excesso de velocidade, o uso do celular ao volante, o desrespeito à sinalização e a falta de atenção com pedestres e motociclistas. A combinação entre imprudência e distração, diz, continua sendo uma das principais causas de acidentes graves. “Muitas pessoas dirigem como se alguns segundos valessem mais do que uma vida.”

Abreu destaca que o crescimento de Goiânia e o aumento do fluxo de veículos tornam o comportamento humano mais decisivo para evitar tragédias. Para o técnico, engenharia e fiscalização ajudam, mas consciência no trânsito continua sendo o fator mais importante.

O gestor também chama atenção para os impactos coletivos provocados pelos acidentes. Além de atingirem diretamente famílias inteiras, as ocorrências afetam o transporte coletivo, geram congestionamentos e mobilizam equipes de saúde, de trânsito e de segurança pública. “O trânsito deixa de ser apenas mobilidade e passa a ser uma questão de saúde pública”, afirma.

Na “bike” e a pé

A convivência entre diferentes formas de mobilidade também faz parte do debate da campanha Maio Amarelo. Ciclistas, motoristas e pedestres compartilham o mesmo espaço no trânsito.

Servidor da Alego, Gilberto Oliveira utiliza a bicicleta como meio de transporte no cotidiano. Para além da economia e da contribuição ambiental, a “magrela” faz parte de sua rotina de deslocamento.

Ele cita o uso de capacete, iluminação e sinalização como medidas de segurança. E frisa a importância do respeito entre todos os usuários das vias. “Muitos motoristas ainda se irritam ao ver um ciclista no asfalto, mas, quando não existe ciclovia, essa acaba sendo a única opção. Até por que a rua é de todos.”

Oliveira ressalta que ciclistas devem respeitar sinalizações, manter atenção e adotar comportamento previsível no trânsito.

O consultor imobiliário Leonardo Rocha leva as filhas para a escola a pé todos os dias e nota que isso altera sua percepção sobre o trânsito. “Quando você anda a pé, percebe situações que no carro passam despercebidas. Quando o motorista reduz a velocidade, para na faixa e respeita quem está atravessando, o deslocamento ocorre de forma mais segura. A caminhada faz parte da rotina. Em algum momento do dia, todos também são pedestres”, lembra.

Campanha

Criada pela Organização das Nações Unidas (ONU), a Maio Amarelo se tornou um movimento mundial voltado à redução de mortes e acidentes no trânsito. A ação reforça que a segurança depende não apenas de fiscalização, mas principalmente das escolhas feitas diariamente por motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres.

A verdade é que, no fim das contas, ninguém divide apenas ruas e avenidas. Divide histórias, famílias e a esperança de voltar para casa em segurança.

Projetos na Alego

O tema também é prioridade para os deputados estaduais goianos, que sempre debatem projetos voltados à segurança viária, educação no trânsito e proteção de pedestres e motociclistas. Pelo menos três propostas estão tramitando na casa de Leis.  

O deputado Veter Martins (PSB) apresentou o projeto de lei nº 4691/26, que propõe medidas para ampliar a segurança em rodovias estaduais, como instalação de passarelas, reforço da sinalização e estudos técnicos em trechos com alto índice de travessia de pedestres.

Dr. George Morais (MDB) propôs  o projeto de lei nº 30870/25, que institui o Dia Estadual do Motociclista, com previsão de ações educativas e campanhas de conscientização sobre segurança no trânsito.

Outro projeto em tramitação é o de nº 28823/25, de autoria do deputado Amilton Filho (MDB), que cria o Programa Estadual de Incentivo Voluntário ao Uso do Adesivo “Recém-Habilitado”, voltado à promoção de respeito e cooperação com motoristas iniciantes.



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