Com o partido apostando nas candidaturas de Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, o governador Ibaneis Rocha enfrenta isolamento político, pressão por CPI do Banco de Brasília e o dilema entre deixar o cargo para disputar o Senado ou permanecer para manter o foro privilegiado
Dois dias depois do rompimento político que sacudiu Brasília, o cenário só ficou mais claro — e mais duro para o governador do Distrito Federal.
O Partido Liberal não apenas rompeu com Ibaneis Rocha como passou a liderar um movimento para instalar uma CPI na Câmara Legislativa do Distrito Federal para investigar a relação entre o Banco de Brasília e o escândalo envolvendo o Banco Master. (InfoMoney)
A iniciativa surgiu após a revelação de que o escritório de advocacia de Ibaneis firmou um contrato de cerca de R$ 38 milhões ligado à venda de honorários de precatórios para um fundo associado à gestora Reag, investigada no contexto do caso Master.
O governador nega irregularidades e sua defesa afirma que a operação é comum no mercado jurídico.
Mas na política, muitas vezes a narrativa pesa tanto quanto os fatos jurídicos.
O Senado mudou tudo
O rompimento tem menos a ver com amizade política e mais com cálculo eleitoral.
O PL decidiu que terá duas candidatas próprias ao Senado pelo DF: Michelle Bolsonaro e Bia Kicis. (VEJA)
Esse movimento simplesmente fecha o espaço político que Ibaneis tentava ocupar dentro do campo bolsonarista.
Ou seja: o governador deixou de ser aliado estratégico e passou a ser um competidor incômodo.
Nesse novo desenho, a peça central do tabuleiro passa a ser a vice-governadora Celina Leão, apontada como possível candidata ao Palácio do Buriti em uma aliança com o bolsonarismo local.
Na prática, o que se desenha é um novo eixo político: Celina no Buriti, Michelle e Bia no Senado.
E nesse arranjo, Ibaneis simplesmente não cabe.
A CPI como instrumento político
A CPI do BRB virou mais do que um instrumento de investigação.
Ela passou a ser também uma ferramenta de pressão política.
O pedido foi apresentado por distritais do PL e busca investigar possíveis irregularidades na relação entre o banco público do DF e o Banco Master.
Se a comissão avançar, o desgaste político para o governo pode crescer rapidamente.
E há novos elementos aumentando a pressão pública. Nos últimos dias, surgiram também questionamentos sobre projetos envolvendo patrimônio público ligado ao banco e até investigações envolvendo negócios ligados à família do governador.
Cada novo episódio ajuda a alimentar a narrativa de crise.
O dilema do governador
Nesse contexto, Ibaneis enfrenta um dos momentos políticos mais delicados de sua carreira.
Ele precisa decidir entre dois caminhos igualmente arriscados:
1️⃣ Desincompatibilizar-se do cargo para disputar o Senado
Isso permitiria entrar na corrida eleitoral, mas também significaria abrir mão do cargo e do foro privilegiado.
2️⃣ Permanecer no governo até o fim do mandato
Nesse caso, manteria proteção institucional, mas enfrentaria uma crise política crescente — com CPI, investigações e um antigo aliado agora transformado em adversário.
O abandono no convés
A política tem uma lógica implacável: quando o vento muda, as alianças também mudam.
O PL parece ter feito sua escolha estratégica.
A prioridade agora é construir uma chapa forte para 2026, com Michelle Bolsonaro e Bia Kicis no Senado e uma possível aliança com Celina Leão no governo.
Nesse cenário, o governador que até pouco tempo atrás era aliado do bolsonarismo no DF começa a dar sinais de isolamento.
E quando um partido decide investigar um governo que até ontem apoiava, a mensagem política costuma ser clara:
O barco pode até continuar navegando, mas muitos já começaram a procurar o bote salva-vidas.



