Enquanto a extrema-direita articula PEC da Blindagem e projeto de anistia, ícones da MPB transformam palcos em todo o Brasil em trincheiras de resistência democrática. O grito de “sem anistia” ecoa mais atual do que nunca.
No último domingo (21), em atos por todo o país, a cena no Rio de Janeiro foi histórica: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Djavan juntos, cantando contra a tentativa de legalizar a impunidade em pleno Congresso. O protesto, marcado pelo coro de “sem anistia”, mirou diretamente dois absurdos em curso: a PEC da Blindagem, que dificulta a responsabilização de parlamentares e amplia foro privilegiado a caciques partidários, e o PL da Anistia, um salvo-conduto para quem tentou o golpe de 2023.
Mas não parou no Rio. Em Brasília, Chico César puxou “Caminhando e Cantando”, que tem o título oficial “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, transformando a capital federal em palco de memória e resistência. E, em diversas capitais, outros artistas engrossaram o movimento, mostrando que a cultura voltou a ocupar seu papel histórico de consciência crítica do país.
O contraste não poderia ser maior. De um lado, deputados e senadores preocupados em salvar a própria pele e blindar os seus. Do outro, artistas que já enfrentaram ditadura, exílio e censura, colocando-se mais uma vez na linha de frente da defesa democrática.
“Cálice”, cantada por Chico e Gil, nunca soou tão atual. É o hino da mordaça, da censura, do silêncio imposto — e que a extrema-direita ainda sonha em reinstaurar. Ao lembrar Gal Costa com “Divino e Maravilhoso”, Caetano e Gil reforçaram que a Tropicália não foi apenas música: foi resistência, foi desobediência criativa, foi a recusa em se calar diante da violência do Estado.
O recado foi direto: quem insiste em anistiar golpistas e blindar políticos corruptos está na contramão da história. Se a Tropicália foi reprimida a ferro e fogo em 1968, hoje ela volta como memória viva para lembrar que a democracia brasileira ainda é frágil, ainda é atacada, e ainda precisa ser defendida com todas as notas e todas as vozes.
“Podres Poderes”, “Alegria, Alegria”, “Cálice” — canções que denunciavam a truculência de generais e censores, agora ecoam como denúncia contra os novos autoritários de terno e gravata, que preferem manobrar o regimento em vez de ouvir o povo.
No fundo, a ironia é cruel: o bolsonarismo, ao tentar apagar seus crimes e blindar seus quadros, acaba ressuscitando exatamente aquilo que mais teme — a memória da resistência cultural que ajudou a derrubar a ditadura.
E, diante disso, cabe repetir o coro que tomou Rio, Brasília e tantas outras capitais: sem anistia, nunca mais.



