A candidatura de Celina Leão entra em um território perigoso. Não por um erro próprio direto — ao menos até aqui — mas porque sua principal plataforma eleitoral começa a ruir sob seus pés: o governo Ibaneis Rocha.
Celina sempre vendeu sua trajetória como continuidade administrativa com verniz ideológico. Governo do DF como vitrine de “gestão” e, ao mesmo tempo, aproximação calculada com o eleitorado da direita, especialmente os herdeiros políticos do bolsonarismo no Distrito Federal. Esse equilíbrio — técnico de um lado, ideológico do outro — sempre foi seu ativo central.
O problema é que esse equilíbrio depende de duas coisas: credibilidade fiscal e distância simbólica da corrupção. E ambas estão sendo corroídas em ritmo acelerado.
A delação de Daniel Vorcaro muda o jogo. Não pelo que prova de forma definitiva, mas pelo que expõe como plausível. Quando Vorcaro afirma à Polícia Federal que tratou da venda do Banco Master ao BRB com o próprio governador Ibaneis Rocha, o caso deixa de ser um “erro técnico” e passa a orbitar o campo da responsabilidade política direta.
Some-se a isso o tamanho do rombo: investigações apontam que o BRB pode ter absorvido R$ 12,2 bilhões em carteiras inexistentes, com prejuízo estimado de R$ 4 bilhões. Isso, por si só, já inviabiliza qualquer narrativa de gestão responsável.
Mas o problema é mais amplo — e mais corrosivo eleitoralmente.
Levantamentos públicos mostram que, entre 2020 e 2023, o BRB destinou cerca de R$ 153,18 milhões ao patrocínio do Flamengo. Considerando renovações e aditivos contratuais, a parceria pode ultrapassar R$ 200 milhões até 2025, com previsão de mais R$ 50 milhões até o fim do contrato.
Isoladamente, patrocínio não é crime. O problema é o contexto: um banco público, sob comando político, fazendo apostas bilionárias mal explicadas, enquanto amplia gastos de marketing esportivo em escala nacional, ao mesmo tempo em que afunda em prejuízos históricos. Para o eleitor — especialmente o eleitor de direita — isso não é narrativa: é contradição explícita.
E aqui está o ponto central para Celina Leão.
A direita, mesmo quando cínica, precisa performar uma ética mínima. Honestidade simbólica. Discurso anticorrupção. Repulsa formal ao aparelhamento do Estado. Quando um governo passa a exalar cheiro de escândalo financeiro, delação premiada e rombo em banco público, esse campo ideológico começa a buscar distância.
Celina tenta migrar. Seus movimentos recentes mostram isso. Mais acenos à direita, mais retórica moral, mais distanciamento discursivo do núcleo duro do Buriti. Mas o tempo político não joga a seu favor.
As últimas pesquisas já indicam estagnação com leve retração. Nada dramático ainda — mas revelador. Se uma nova rodada fosse feita agora, no calor da delação de Vorcaro e da explosão do caso BRB, é difícil imaginar Celina mantendo a dianteira com conforto.
Nesse cenário, quem ganha oxigênio é quem soube esperar. José Roberto Arruda, experiente, silencioso, com memória eleitoral consolidada, tende a crescer exatamente quando o governo vira problema — não solução. Isso não é previsão mística. É leitura básica de dinâmica eleitoral no DF.
A pergunta, portanto, não é apenas “como fica a candidatura de Celina Leão”. A pergunta real é: quanto do governo Ibaneis ela consegue carregar sem afundar junto?
Porque, a partir de agora, cada novo capítulo da investigação não atinge só o Buriti. Atinge qualquer projeto político que tenha feito desse governo sua principal vitrine.
E vitrine rachada não vende liderança. Expõe.


