A final da Supercopa do Brasil, realizada neste domingo no Mané Garrincha, reuniu muito mais do que as duas maiores torcidas do país. Reuniu símbolos. Brasília estava no centro do futebol nacional — e, como quase sempre, também no centro de suas contradições políticas.
Chamou atenção, mais uma vez, a presença de autoridades públicas. Mas chamou ainda mais atenção onde elas escolheram estar. Quase todas nos camarotes. Isoladas. Protegidas. Distantes. Os camarotes viraram, em Brasília, uma espécie de refúgio institucional — um espaço onde o poder observa o povo sem jamais se misturar a ele.
Não é um detalhe menor. Há apenas alguns meses, o Governo do Distrito Federal gastou mais de R$ 1 milhão com um camarote, incluindo eventos com comida de luxo, camarão, caviar e convidados selecionados. O contraste é gritante: dinheiro público financiando exclusividade, enquanto o discurso oficial insiste em proximidade com a população.
Nesse cenário, um gesto destoou. José Roberto Arruda não foi para camarote. Foi para o meio da torcida. Caminhou pelo estádio, conversou com torcedores, esteve no gramado. Sem isolamento. Sem proteção simbólica. Sem a distância que virou regra entre autoridades e cidadãos.
Não se trata de idolatria, mas de postura política. Há uma diferença clara entre quem exerce poder por cargo e quem carrega legitimidade social. Poucos políticos no Distrito Federal poderiam descer naquele gramado e se sentir à vontade. A maioria não desce porque tem medo. Prefere o vidro, o ar-condicionado e o distanciamento.
O futebol, nesse domingo, expôs algo que Brasília insiste em esconder: o abismo entre autoridade e povo. E quando alguém cruza esse abismo sem escolta simbólica, vira exceção. Não por genialidade, mas porque o padrão virou o isolamento.
Arruda chamou atenção justamente por isso: foi fora da curva. E quando o simples ato de estar no meio das pessoas vira exceção, o problema não está em quem desce — está em quem nunca ousa sair do camarote.
E haverá aqueles que dirão que ele “invadiu” o gramado.


