Por Ricardo França
Influenciador político – São Sebastião/DF
Ninguém carrega peso morto
O Distrito Federal possui uma configuração política única no país. Somos, ao mesmo tempo, estado e município, com uma administração centralizada e um sistema eleitoral proporcional. Ainda assim, persiste uma narrativa equivocada: a de que eleger um “candidato da região” garante, automaticamente, mais obras, mais atenção e mais resultados para aquele território.
Os números desmontam essa ideia. Hoje, o DF conta com 35 Regiões Administrativas e apenas 24 deputados distritais. Isso, por si só, torna impossível a existência de um representante exclusivo por região. A política distrital não funciona por divisão territorial simples, nem por posse simbólica de bairros ou cidades.
Deputados que não são de determinada região conseguem se eleger justamente porque compreendem essa complexidade. Eles entendem que cada Região Administrativa possui demandas distintas — algumas mais voltadas à educação, outras à saúde, infraestrutura, segurança, acessibilidade, mobilidade ou desenvolvimento econômico. A partir dessa leitura, constroem bases em várias RAs, dialogam com lideranças locais e mantêm uma atuação transversal.
Quando cada parlamentar fortalece sua base e respeita a base do outro, a engrenagem institucional funciona. A política avança por articulação, cooperação e negociação. É assim que resultados reais são construídos no DF.
O problema surge quando alguns insistem em atuar de forma isolada, concentrando toda a ação política em apenas uma Região Administrativa e, muitas vezes, tentando impedir a atuação de outros parlamentares. Essa postura trava o processo administrativo, enfraquece alianças e, no fim, prejudica a própria população.
Esse cenário se agrava quando as oposições locais passam a concentrar toda a responsabilidade — do que é bom e do que é ruim — exclusivamente naquele que se apresenta como “o representante da região”. Sustentar sozinho todas as expectativas, cobranças, falhas e acertos de uma Região Administrativa inteira é institucionalmente impossível.
A própria lógica eleitoral comprova isso. Nas eleições de 2022 para a Câmara Legislativa do DF, o deputado Fábio Félix (PSOL) foi o mais votado, com cerca de 51.792 votos. Ao mesmo tempo, outros deputados foram eleitos com percentuais bem menores, em alguns casos entre 0,6% e 3% dos votos válidos. Isso ocorre porque o sistema eleitoral é proporcional, baseado no total de votos dos partidos e coligações — e não apenas na votação individual ou local.
Esse dado revela uma verdade incômoda para o discurso localista: mandato não se sustenta por CEP. Quando um deputado se elege apenas pelo endereço eleitoral, dificilmente consegue se manter por mais de um mandato. A carga é grande demais, as expectativas são irreais e o desgaste político é inevitável.
Mandatos duradouros exigem trabalho, articulação política, leitura do sistema e respeito às prerrogativas institucionais. Alguns chegam por circunstâncias favoráveis, outros por mérito. Mas só permanece quem entende que política não se faz sozinho.
Por fim, é preciso reforçar o essencial: políticas públicas como educação, saúde, infraestrutura, mobilidade, acessibilidade e desenvolvimento econômico são responsabilidades do Poder Executivo. Dependem de orçamento, planejamento e decisões centralizadas — não do CEP do parlamentar, nem do simples fato de ele morar ou não em determinada região.
Insistir no localismo político é vender uma ilusão confortável no curto prazo, mas extremamente danosa no médio e longo prazo. O DF precisa de lideranças que expliquem o sistema, não que explorem a desinformação.
Porque, na política real, ninguém carrega peso morto.
✍️ Ricardo França
Influenciador político
São Sebastião – Distrito Federal
“No DF, mandato não se sustenta por CEP. Sustenta-se por trabalho, articulação e entendimento do sistema.”



A análise apresentada é correta ao desmontar o mito do “deputado dono de região”. No DF, mandato realmente não se sustenta por CEP, e sim por articulação, compreensão do sistema e atuação institucional. O problema é que essa engrenagem, na prática, vem sendo distorcida.
Além do localismo político , que já é nocivo , existe um fator ainda mais grave: a captura dos mandatos pelo Poder Executivo. Muitos deputados distritais deixam de cumprir sua função principal, que é legislar, fiscalizar e defender o interesse público, para se tornarem apadrinhados do governador.
Em vez de leis, entregam apoio político.
Em vez de fiscalização, recebem cargos.
Em vez de representar o povo, passam a administrar administrações regionais, secretarias e estruturas públicas como se fossem extensão de seus currais eleitorais.
Esse modelo transforma o Estado em moeda de troca e cria uma falsa sensação de representação. A população paga impostos, mas não vê seus direitos garantidos porque o foco deixa de ser política pública e passa a ser manutenção de cabos eleitorais e alianças de conveniência.
Nesse cenário, não é só o localismo que fracassa. Fracassa a democracia representativa, porque o cidadão fica refém de acordos de bastidores, enquanto saúde, educação, mobilidade e infraestrutura continuam precárias.
O DF não precisa de “donos de região” nem de deputados governistas por conveniência. Precisa de parlamentares independentes, que legislem de verdade, fiscalizem o Executivo e expliquem ao povo como o sistema funciona, em vez de usá-lo para se perpetuar no poder.
Enquanto mandato for tratado como extensão do governo e não como representação do cidadão, o contribuinte continuará pagando a conta e recebendo muito pouco em troca.
No DF, mandato não se sustenta por CEP.
Mas também não deveria se sustentar por apadrinhamento.