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Transtorno do jogo

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Uma aposta no celular pode começar como diversão, curiosidade ou tentativa de conseguir algum dinheiro extra. Para parte dos brasileiros, porém, o hábito assume outro significado e vira esperança de pagar uma conta, completar a renda ou até mudar de vida. E é justamente nesse ponto, quando a aposta passa a ocupar espaço no planejamento financeiro e no orçamento doméstico, que cresce o risco de uma relação problemática com o jogo. 

Um estudo inédito divulgado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), neste mês de setembro, ajuda a compreender o que existe por trás desse comportamento. A pesquisa “Aposta Online no Brasil: perfis de uso, jornadas e padrões de comportamento” indagou não apenas quanto ou com que frequência as pessoas apostam, mas porque fazem isso e qual papel as bets passaram a ocupar em suas vidas. 

Realizado em parceria com a consultoria Kyvo, o levantamento qualitativo ouviu, em 2025, 60 apostadores e ex-apostadores de todas as regiões do país. Foram realizadas entrevistas em profundidade, grupos focais, análise do ambiente digital, monitoramento de redes sociais, conversas com profissionais do mercado financeiro e em workshops de cocriação. Mais de 720 páginas de transcrições foram analisadas. 

O resultado revela um universo mais complexo do que a simples busca por entretenimento. Para algumas pessoas, apostar significa tentar colocar comida na mesa. Para outras, representa a expectativa de complementar a renda. Há, ainda, quem veja no jogo a possibilidade de enriquecimento ou simplesmente uma fonte de emoção e diversão. 

Quatro maneiras de enxergar a aposta 

A Anbima identificou quatro perfis principais. Os chamados “matadores de leões” recorrem às apostas principalmente em períodos de dificuldade financeira. Os “adeptos da fortuna” enxergam na sorte uma possibilidade de transformação da própria vida. Já os “experts da realidade” acreditam que conhecimento, método e estratégia podem ser utilizados para obter renda complementar. Por fim, os “caçadores de emoções” são movidos principalmente pelo entretenimento. 

As categorias não funcionam como rótulos permanentes. Uma mesma pessoa pode mudar sua relação com as apostas ao longo do tempo, passando por períodos de maior envolvimento, tentativas de controle, interrupções e retornos. 

Um comportamento que merece atenção especial é quando se iniciam as tentativas de recuperar perdas por meio de novas apostas. Entre os depoimentos reunidos pela pesquisa aparece justamente essa lógica de que, depois de perder, o apostador continua jogando na expectativa de recuperar o dinheiro. Esse mecanismo pode transformar uma perda inicialmente limitada em comprometimento crescente do orçamento. 

Aposta não é investimento 

Outro achado chama atenção pela relação direta com a educação financeira. A linguagem utilizada por parte dos apostadores se aproxima daquela encontrada no mercado financeiro. Termos como “estratégia”, “retorno”, “método” e “rendimento” aparecem nas conversas sobre apostas. 

A 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa também realizada pela Anbima em parceria com o Datafolha, mostra que 20% dos apostadores consideram as apostas uma forma de investimento. A associação, entretanto, esconde uma diferença fundamental. 

Investir pressupõe aplicação de recursos com avaliação de risco, horizonte de tempo, planejamento e possibilidade de formação de patrimônio. Na aposta, o dinheiro é colocado em um resultado incerto, sujeito ao acaso e sem a finalidade de construção patrimonial de longo prazo. 

O mesmo Raio X mostra o avanço das bets. Em 2025, 17% da população economicamente ativa pesquisada declarou ter realizado apostas online, ante 15% no ano anterior e 14% em 2023. Entre os apostadores, 37% disseram gastar R$ 100 ou mais por mês. O perfil encontrado pelo levantamento é predominantemente masculino e mais jovem, no qual 66% são homens e com idade média de 35 anos. 

A confusão entre aposta e investimento torna-se ainda mais relevante quando o jogo surge como resposta a dificuldades financeiras. Em vez de constituir uma estratégia para reorganizar o orçamento, a tentativa de obter dinheiro rapidamente pode ampliar justamente o problema que levou a pessoa a apostar. 

“As apostas passaram a ocupar um espaço relevante na vida financeira de parte da população. Quanto mais entendermos as motivações e os contextos por trás desse comportamento, maior será a capacidade de desenvolver ações educativas que dialoguem com a realidade das pessoas”, afirma Marcelo Billi, superintendente de Sustentabilidade, Inovação e Educação da Anbima. 

Quando a conta chega dentro de casa 

O impacto das apostas não se limita ao apostador. A pesquisa “Mulheres & Bets: o Custo das Apostas Online para as Brasileiras e suas Famílias”, desenvolvida pelo estúdio Clarice, em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa Ideia, oferece outra perspectiva sobre o fenômeno. 

O levantamento aponta que 42% das mulheres brasileiras já apostaram ou apostam atualmente, enquanto outros 12% nunca apostaram, mas são diretamente impactadas por alguém próximo que joga. Assim, mais da metade das mulheres pesquisadas (54%) convive direta ou indiretamente com as bets. 

Entre elas, a motivação financeira aparece com força. Busca por renda extra, dinheiro rápido, pagamento de despesas básicas e quitação de dívidas estão entre as razões apresentadas para apostar. 

Contudo, a perda financeira pode ser apenas a face mais visível do problema. O levantamento também identificou desgaste emocional, quebra de confiança e conflitos familiares. Para 67% das mulheres entrevistadas, as apostas online estão destruindo famílias brasileiras, percepção compartilhada por 59% dos homens. Além disso, 23% dos brasileiros ouvidos disseram conhecer ou ter presenciado alguma situação em que as apostas contribuíram para episódios de violência dentro da família. 

Os números ajudam a mostrar por que a discussão deixou de ser exclusivamente financeira ou regulatória. Quando o dinheiro destinado às despesas da casa migra para plataformas de apostas, as consequências alcançam alimentação, contas, relacionamentos e saúde mental. 

Quando jogar se transforma em doença 

Nem toda pessoa que aposta desenvolve dependência. O sinal de alerta está sobretudo na perda de controle e nos prejuízos provocados pelo comportamento. 

O chamado transtorno do jogo, também conhecido como jogo patológico ou ludopatia, é reconhecido como transtorno de comportamento aditivo. Entre os sinais estão a dificuldade persistente para reduzir ou abandonar as apostas, preocupação constante com o jogo, tentativa de recuperar perdas apostando novamente, irritabilidade quando se tenta parar, mentiras para esconder o comportamento e comprometimento das relações familiares, profissionais e financeiras. 

Dados apresentados pela Associação Médica Brasileira (AMB), com base no Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), estimam que cerca de 10,9 milhões de pessoas, ou 7,3% da população brasileira com 14 anos ou mais, apostem de maneira que já provoca algum prejuízo pessoal, profissional ou financeiro. Dentro desse grupo, aproximadamente 1,4 milhão preencheria critérios clínicos para transtorno do jogo. 

O levantamento também acende um alerta para o ambiente digital. Entre pessoas que apostam em plataformas on-line, 66,8% apresentam sinais de risco ou jogo problemático, ante 26,8% entre usuários de modalidades presenciais. 

A facilidade ajuda a explicar parte do risco. Diferentemente de modalidades tradicionais, o cassino ou a casa de apostas agora cabem no bolso e funcionam no celular, 24 horas por dia, com notificações, bônus, recompensas e possibilidade de novas apostas em poucos segundos. 

Há tratamento pelo SUS 

Quando a aposta foge do controle, procurar ajuda é uma medida de saúde. 

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento às pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e também a seus familiares. A porta de entrada pode ser uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Quando necessário, o paciente é encaminhado à Rede de Atenção Psicossocial, inclusive aos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), onde pode receber acompanhamento multiprofissional. 

Desde agosto, o SUS também passou a disponibilizar capacidade para até 100 mil teleatendimentos mensais destinados especificamente a pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas. O serviço é remoto e sigiloso e inclui suporte aos familiares. As consultas psicológicas são realizadas por videochamada e podem integrar ciclos de acompanhamento antes de nova avaliação profissional. 

O acesso pode ser iniciado pelo Meu SUS Digital. Na área destinada a problemas com jogos e apostas, o usuário encontra um autoteste. Conforme o resultado, pode ser direcionado ao teleatendimento ou receber orientação para procurar os serviços da rede pública. O próprio Ministério da Saúde ressalta que o teste não substitui avaliação profissional. 

Outra possibilidade é a autoexclusão, ferramenta do Governo Federal que permite ao próprio apostador solicitar o bloqueio de suas contas nas plataformas autorizadas, impedir a abertura de novas contas vinculadas ao CPF e interromper o envio de publicidade direcionada pelas empresas de apostas. 

Tema mobiliza a Alego 

A expansão das apostas também vem provocando respostas no Poder Legislativo goiano. Nos últimos anos, deputados estaduais apresentaram iniciativas que tratam desde publicidade e educação financeira até prevenção da dependência e atendimento aos jogadores. 

Uma das primeiras proposituras a se transformar em norma foi publicada como Lei Estadual nº 23.108, de 26 de novembro de 2024, originada do projeto nº 6625/23, do deputado Wilde Cambão (UB). A legislação proíbe a publicidade, por influenciadores digitais, de jogos de azar ou apostas não regulamentadas em lei. A proposta havia sido apresentada em 2023 diante da preocupação com a influência da publicidade, sobretudo sobre o público mais jovem. 

Outras iniciativas ampliaram o debate. O deputado Lineu Olimpio (MDB) apresentou a proposta nº 21586/24, que ainda está sob deliberação da Comissão de Saúde da Casa. Trata-se de proteção à saúde e ao bem-estar social diante do uso de sites e aplicativos de apostas.

De autoria da deputada Bia de Lima (PT), o projeto de lei no processo nº 21759/24 também tramita na Comissão de Saúde, fixando normas para uma política de prevenção aos jogos de azar e apostas.

Já o deputado Anderson Teodoro (PRD), por meio do processo nº 26877/24, propôs a implantação de uma campanha estadual de conscientização. O projeto de lei é outro a aguardar votação do mesmo colegiado temático.

Dr. George Morais (MDB) apresentou matéria (nº 4025/25) para tornar obrigatória a divulgação dos riscos associados às apostas online. Aborda, entre outros pontos, prevenção ao endividamento, atendimento psicológico e psiquiátrico, campanhas educativas e alertas sobre dependência e transtornos relacionados ao jogo. A Comissão de Saúde deve votar em breve o parecer do relator.

Além destas, um indicativo de proposição legislativa ao Poder Executivo, por se tratar de assunto de prerrogativa exclusiva do mesmo, está no processo nº 12226/25, do deputado Lucas do Vale (PSD). A iniciativa autoriza a criação do Programa Educacional Fim de Jogo, no âmbito da Secretaria de Estado da Educação, com o objetivo de conscientizar crianças e adolescentes sobre os malefícios dos jogos de azar e apostas.

A Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJ) validou o parecer pelo apensamento de dois projetos de lei de teor semelhante. Diz respeito ao processo nº 4812/26, de Jamil Calife (PP), que institui a Política Estadual de Prevenção e Combate ao Vício em Apostas Online, o qual deve ser juntado ao nº 21753/24, da parlamentar petista Bia de Lima.

Em 2026, Lineu Olimpio apresentou o projeto de lei sob o nº 8749/26, que propõe a Política Estadual de Prevenção e Apoio ao Tratamento da Dependência em Jogos de Aposta. A iniciativa reconhece a ludopatia como problema que exige atenção das políticas públicas de saúde e prevê fortalecimento da rede pública de atendimento psicossocial, além de ações educativas, inclusive no ambiente escolar. Em sua análise pela Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJ), a matéria recebeu parecer para ser apensada ao processo nº 21586/24, de mesma autoria e relacionado ao tema. 

A educação financeira também entra nessa discussão. O projeto de lei nº 6934/26, do deputado Virmondes Cruvinel (UB), institui o Programa Goiano de Educação Financeira para a Juventude “Donos do Futuro”, com conteúdos relacionados a planejamento financeiro, consumo consciente, investimentos e empreendedorismo. Entre seus objetivos está justamente prevenir o endividamento precoce e o uso irresponsável do crédito, especialmente em plataformas digitais e apostas on-line. A medida proposta por Cruvinel entrou com parecer favorável na Ordem do Dia do Plenário e, se confirmado, será encaminhado à comissão temática pertinente.

Goiás passa a ter política estadual contra a ludopatia 

A mais recente resposta legislativa ao problema já está em vigor. Sancionada no último dia 27 de agosto, a Lei Estadual nº 24.501/26 institui a Política Estadual de Prevenção, Conscientização e Atenção Integral à Ludopatia. A norma nasceu do processo legislativo nº 8818/24, assinado pelo deputado Delegado Eduardo Prado (PL). Sua aprovação definitiva pela Alego foi em 4 de agosto. 

A legislação estabelece como diretrizes o estímulo a ações educativas e informativas sobre riscos e consequências da ludopatia; estratégias de prevenção especialmente direcionadas a jovens, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade social; capacitação de profissionais das áreas de saúde, educação e assistência social para identificar precocemente sinais do problema; incentivo à realização de pesquisas; e parcerias com a iniciativa privada e organizações da sociedade civil. 

A nova política consolida uma mudança de perspectiva apontada nos estudos recentes. Revela-se que a aposta pode começar como entretenimento, mas seus efeitos não terminam necessariamente quando a tela do celular é fechada. 

Eles podem chegar ao orçamento doméstico, às relações familiares, à saúde mental e aos serviços públicos. Por isso, informação e educação financeira ganham importância no enfrentamento do problema, inclusive para desfazer uma ideia de que os próprios levantamentos revelam ainda estar presente entre milhões de brasileiros. 

Apostar e investir não são a mesma coisa. Quando a expectativa de sorte passa a ocupar o lugar do planejamento financeiro, ou quando recuperar o dinheiro perdido exige uma nova aposta, o que parecia uma oportunidade pode se transformar em um problema muito maior. 



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